Nos últimos tempos, um pensamento não sai da minha cabeça: o quão calada a igreja evangélica tem estado diante dos casos de abusos sexuais. Enquanto sexualidade continua sendo tratada como tabu nos púlpitos, crianças, adolescentes e mulheres seguem sofrendo em silêncio dentro dos próprios lares de fé.
O que aconteceu no 41º Congresso dos Gideões Missionários?
Em maio de 2026, a pastora Helena Raquel pregou sobre violência doméstica, abuso sexual e pedofilia no meio cristão durante o 41º Congresso Internacional de Missões dos Gideões Missionários da Última Hora. A mensagem repercutiu tanto que veículos seculares, como G1 e Globo, noticiaram o tema e entrevistaram a pastora.
A repercussão não foi surpresa para quem acompanha de perto a realidade das igrejas. Enquanto muitas mulheres choraram e glorificaram a Deus durante o culto, sentindo-se finalmente vistas e validadas, uma parcela significativa de homens demonstrou visível desconforto com o conteúdo da mensagem.
Por que esse assunto incomoda tanto dentro da Igreja?
O tema incomoda porque expõe uma realidade que muitos líderes preferem esconder: o uso da autoridade espiritual para cometer ou acobertar crimes sexuais. Falar abertamente sobre isso desperta vítimas silenciadas e as encoraja a denunciar, o que ameaça reputações, cargos e estruturas de poder dentro das congregações.
Quando um púlpito nomeia o abuso pelo que ele é, deixa de tratá-lo como “assunto de família” ou “problema espiritual” e passa a reconhecê-lo como crime. Isso é desconfortável para quem se beneficiou do silêncio institucional por anos.
Por que a igreja evangélica evita falar sobre abusos sexuais?
A igreja evita o tema porque, além de sexualidade já ser tabu nos círculos religiosos, existe uma cultura de proteção à reputação institucional e de idealização da figura do líder. Denunciar um pastor ou diácono costuma ser visto, erroneamente, como atacar a própria fé.
Os principais motivos para esse silêncio incluem:
- Medo de manchar a imagem da igreja perante a comunidade;
- Idealização excessiva da liderança, tratada como infalível;
- Ausência de protocolos claros de denúncia dentro das congregações;
- Interpretação distorcida de “perdão”, que silencia a vítima em vez de responsabilizar o agressor;
Ensinar sobre o tema dá às vítimas conhecimento e segurança para denunciar. Já o silêncio abre brechas para que agressores continuem atuando, muitas vezes protegidos justamente pelo cargo que ocupam.
O que é abuso, segundo especialistas?
Segundo a Jed Foundation, abuso é quando alguém usa seu comportamento ou influência sobre outra pessoa para causar dano ou exercer poder sobre ela, especialmente quando esse comportamento se repete regularmente. Reconhecer o abuso é difícil porque, na maioria das vezes, ele parte de alguém em quem confiamos.
Se já estamos passando por um momento emocionalmente difícil, fica ainda mais complicado perceber que estamos sofrendo abuso — principalmente quando ele começa de forma sutil e se intensifica com o tempo, como costuma acontecer em casos de violência doméstica ou abuso infantil.
Quais são os tipos de abuso que podem ocorrer na igreja e em casa?
Existem seis tipos principais de abuso: físico, emocional/verbal, sexual, financeiro, digital e perseguição (stalking). Todos têm em comum o uso de poder ou influência para controlar, ferir ou intimidar outra pessoa, e podem acontecer tanto em ambientes domésticos quanto religiosos.
Tipo de abuso
Físico
Emocional/verbal
Sexual
Financeiro
Digital
Perseguição (stalking)
O que caracteriza
Dano ou dor indesejados causados intencionalmente ao corpo
Manipulação psicológica e controle do comportamento
Forçar, coagir ou pressionar para atividade sexual indesejada
Controle do dinheiro ou dos recursos da vítima
Uso de canais online para intimidar ou controlar
Vigilância contínua que gera medo ou insegurança
Exemplos comuns
Empurrar, bater, arranhar, imobilizar, expor a conteúdo sexual indesejado
Xingamentos, humilhação pública, isolamento, ameaças, espalhar boatos
Estupro, toques indesejados, insultos sexuais, contato com pessoa incapacitada
Restringir acesso a recursos, roubar dinheiro, impor dependência financeira
Insultos online, exposição de fotos íntimas, perseguição em redes sociais
Aparecer sem convite, rastrear redes sociais, contatar amigos e familiares da vítima
Um dado relevante: mulheres relatam significativamente mais casos de abuso sexual do que homens, tanto na infância quanto na vida adulta, além de maior prevalência de abuso emocional em comparação aos homens. E o abuso digital merece atenção redobrada, já que muitas dessas técnicas não são, isoladamente, consideradas ilegais, o que permite que o agressor cause danos profundos sem sofrer consequências legais imediatas.
Com todos esses tipos de abuso listados, vale a reflexão: quantos deles já foram normalizados em sua família, igreja ou roda de amigos?
O que os números revelam sobre abuso sexual no Brasil?
Os dados são alarmantes: segundo o Atlas da Violência 2026 (IPEA e Fórum Brasileiro de Segurança Pública), os casos de violência sexual contra crianças de 0 a 4 anos saltaram de 1.671 para 7.845 em dez anos (2014–2024). Só no primeiro semestre de 2026, o Brasil já havia registrado mais de 10 mil vítimas de estupro, com as mulheres representando a grande maioria dos casos, segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública.
Podemos viver em lares e igrejas saudáveis, livres desses tipos de abuso, mas, infelizmente, essa não é a realidade de todos. Já presenciei líderes controlando a vida de seus liderados pelas redes sociais, proibindo-os de frequentar determinados lugares. Já vi, principalmente, homens gritando e sendo violentos com as palavras dentro das igrejas e sendo ovacionados, como se aquela atitude representasse autoridade divina, esquecendo que muitas vezes ela beira o autoritarismo. Sem contar os casos de abuso sexual varridos para debaixo do tapete com a desculpa de que a denúncia “prejudicaria o ministério de fulano”. E a vítima? Não seria prejudicada?
Como o abuso sexual afeta a saúde física e mental das vítimas?
O abuso sexual está associado a um risco até 3 vezes maior de transtornos de ansiedade e 4 vezes maior de tentativas de suicídio na vida adulta, segundo estudo longitudinal publicado no The Journal of Clinical Psychiatry (2010). Os danos podem se manifestar imediatamente ou surgir anos depois do episódio.
No Brasil, o artigo “As possíveis consequências do abuso sexual praticado contra crianças e adolescentes”, publicado pela SciELO com base em dados da Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul (2003), detalha os impactos em curto e longo prazo:
Manifestações em curto prazo:
- Medo do agressor e de pessoas do mesmo sexo do agressor
- Sintomas psicóticos e queixas somáticas
- Isolamento social e sentimentos de estigmatização
- Quadros fóbico-ansiosos, obsessivo-compulsivos e depressivos
- Distúrbios do sono, da aprendizagem e da alimentação
- Sentimentos de rejeição, confusão, humilhação, vergonha e medo
- Sexualização excessiva, incluindo atividades masturbatórias compulsivas
Manifestações em longo prazo:
- Dissociação afetiva, pensamentos invasivos e ideação suicida
- Ansiedade, depressão, raiva e culpa mais intensas
- Sensação crônica de perigo e cognição distorcida
- Dificuldade para resolver problemas interpessoais
- Abuso de álcool e outras substâncias
- Disfunções sexuais e menstruais
Diante de todos esses danos que o abuso sexual pode causar a curto e longo prazo, calar sobre o tema ou dizer que pregar e ensinar sobre o assunto é desnecessário, significa, sim, ser conivente com criminosos disfarçados de cristãos.
Como ensinar crianças a se protegerem do abuso sexual?
Proteger crianças começa com educação: nomear os órgãos genitais corretamente, ensinar a diferença entre toque bom e toque ruim, reforçar o direito de dizer não e manter escuta ativa. Além disso, é essencial saber onde denunciar (Disque 100, Conselho Tutelar ou 190 em casos de flagrante).
- Fale sobre sexualidade conforme a idade da criança. Existem livros infantis que unem ciência e humor de forma lúdica, como Pipo e Fifi: Ensinando Proteção Contra a Violência Sexual na Infância, de Caroline Arcari (indicado para 4 a 10 anos e usado como material de apoio em escolas e igrejas).
- Use os nomes reais dos órgãos genitais. Evite apelidos, pois eles podem confundir a criança em um eventual momento de abuso.
- Explique as exceções de cuidado. Médicos, enfermeiros ou responsáveis só podem tocar essas áreas para higiene ou saúde, idealmente na presença de outro adulto de confiança.
- Ensine a diferença entre toque bom e toque ruim. Mostre a diferença entre um abraço carinhoso e um toque que deixa a criança desconfortável, confusa ou com medo.
- Reforce o direito de dizer não. A criança tem liberdade de recusar beijos, abraços e colo de familiares, amigos, colegas e, principalmente, desconhecidos.
- Oriente sobre segurança digital. Enviar fotos ou vídeos íntimos por redes sociais ou WhatsApp é crime, e quem pede isso é um criminoso.
- Mantenha escuta ativa. Garanta que a criança tenha um espaço seguro para relatar desconforto, medo ou constrangimento. Antes de confiar cegamente na palavra de um adulto, ouça a criança. Já ouvimos muitos casos de crianças que denunciaram abusos e foram desmentidas.
- Ensine a denunciar. O Disque 100 é um serviço nacional, gratuito e anônimo para denúncias de violação de direitos humanos de crianças e adolescentes. O Conselho Tutelar do município também pode ser acionado para medidas urgentes, e o 190 deve ser usado em casos de flagrante ou violência extrema.
Colocando esses conhecimentos em prática, o número de casos de abuso tende a diminuir em nossas igrejas e no Brasil.
Perguntas Frequentes Sobre Abuso Sexual na Igreja
Como denunciar abuso sexual infantil no Brasil?
Basta ligar para o Disque 100, serviço nacional, gratuito e anônimo. Em casos de flagrante ou violência extrema, acione o 190; para medidas urgentes de proteção, procure o Conselho Tutelar do município.
Qual a diferença entre abuso físico e abuso emocional?
O abuso físico envolve contato indesejado que causa dor ou dano ao corpo, como bater ou empurrar. Já o abuso emocional acontece por meio de palavras, ameaças, isolamento e manipulação psicológica, sem necessariamente haver contato físico.
Por que as vítimas demoram tanto para denunciar um abuso na igreja?
Porque o agressor costuma ser alguém em posição de confiança e autoridade espiritual, o que gera medo, vergonha e dúvida sobre ser acreditada. A cultura de proteção institucional das igrejas também desestimula a denúncia.
Quais sinais indicam que uma criança pode estar sofrendo abuso sexual?
Mudanças repentinas de comportamento, medo de uma pessoa específica, distúrbios de sono ou alimentação, isolamento social e conhecimento sexual incompatível com a idade são sinais de alerta que merecem atenção imediata.
As igrejas têm protocolo para lidar com denúncias de abuso?
Na maioria dos casos, não; grande parte das congregações ainda não possui um protocolo formal de acolhimento e denúncia. Tem crescido, porém, o movimento por políticas de proteção (safeguarding) dentro de igrejas e ministérios.



