Olá a paz, como vocês estão?
Estou um pouco sumida por aqui, mas por bons motivos — e hoje trago um tema que vem ecoando em minha mente há tempos e que preciso dividir com vocês.
A pauta do letramento racial e do movimento negro me acompanha há uns 4 anos, e a cada dia fico mais curiosa: estudo em livros, filmes, documentários, participo de eventos e rolês, tudo que envolve o povo preto, eu quero estar presente e aprendendo.
Recentemente comecei a ler Pequeno Manual Antirracista, da Djamila Ribeiro, que aborda a atualidade do racismo, a negritude, a branquitude, a violência racial, a cultura, os desejos e os afetos. É leitura obrigatória — para pessoas negras e brancas.
E me veio a pergunta que puxa este texto: por que quase não se fala em combater o racismo dentro das igrejas evangélicas?
O que a Bíblia ensina sobre racismo?
A Bíblia não usa o termo “racismo”, mas ensina, desde Gênesis, que todo ser humano foi feito à imagem e semelhança de Deus. Isso significa igualdade de valor entre todas as etnias. Cristo resume a lei em amar a Deus e amar o próximo como a si mesmo — e não há exceção de cor nesse mandamento.
Segundo a definição da própria IA do Google, racismo é a discriminação e o preconceito contra pessoas com base em características étnicas ou raciais — tom de pele, traços físicos —, manifestado desde xingamentos até violência física e institucional. Se a Bíblia ensina que devo amar o próximo como a mim mesmo, não posso maltratar, odiar ou hierarquizar pessoas diferentes de mim.
Esse é o segundo maior mandamento da fé cristã. Ainda assim, vejo discursos de pessoas “que se dizem” cristãs pregando ódio a quem não se parece com elas — seja em púlpitos, seja em palanques políticos.
Há alguns anos assisti ao musical Luther King, da Cia Nissi — produção cristã composta só por artistas negros. Numa das cenas, um ator lança a pergunta: pessoas racistas irão para o céu? A resposta é óbvia, mas percebi, no rosto de quem estava na plateia, que muitos nunca tinham parado para pensar nisso.
Por que as igrejas evangélicas evitam falar sobre racismo?
As duas justificativas mais comuns são “falta de conhecimento” e “não é um assunto necessário para a igreja”. Nenhuma das duas se sustenta hoje: existe farto material cristão e secular sobre o tema, e o Brasil tem maioria populacional negra impactada diretamente pela violência racial.
É falta de conhecimento?
Hoje essa desculpa não se sustenta. Existem livros, documentários, matérias, podcasts e páginas de Instagram inteiras dedicadas ao tema — inclusive de autores cristãos, como Jacira Monteiro, com O Estigma da Cor: Como o racismo fere os dois grandes mandamentos de Cristo, além de vozes como Djamila Ribeiro, Conceição Evaristo, Carolina Maria de Jesus e Abisogun Olátúnjí Odúduwà.
“Não é necessário” falar sobre isso na igreja?
Dizer isso, numa população brasileira majoritariamente negra, é se colocar ao lado de quem prefere que o tema não seja discutido. Trazer a pauta racial para pregações e ensinamentos cumpre três funções práticas:
- Ensina a igreja a não praticar racismo entre membros e com quem está de fora;
- Estimula um olhar de igualdade e empatia — algo que muitos cristãos perderam;
- Reforça, com todas as letras, que atitude racista é incompatível com o caráter de Cristo.
Dados sobre racismo no Brasil que a igreja não pode ignorar
Os números mostram um país onde o racismo mata e adoece. Em 2023 foram registrados 13.897 boletins de ocorrência por injúria racial, e jovens negros seguem sendo as principais vítimas de morte violenta intencional no país.
Dado
Boletins de ocorrência por injúria racial
Mortes violentas intencionais de crianças e adolescentes
Vítimas negras entre os jovens mortos
Jovens negros que já sofreram/presenciaram preconceito na escola ou faculdade
Número
13.897
15.101 (média de 13,5/dia)
83,6% (contra 16% de vítimas brancas)
84%
Período
2023
2021-2023
Último ano registrado
Levantamento recente
Diante disso, insistir que “falar de racismo na igreja não é necessário” é, na prática, escolher um lado.
Como a igreja pode combater o racismo na prática
- Incluir o tema no ensino regular — não só em datas simbólicas como o 20 de novembro.
- Abrir espaço de liderança para pessoas negras — representatividade em posições de decisão, não só no louvor.
- Reconhecer falas e práticas racistas internas quando acontecem, em vez de varrer para debaixo do tapete.
- Indicar produções cristãs antirracistas — livros, documentários, podcasts — como parte do discipulado.
- Tratar o racismo como pecado, com a mesma seriedade dada a outros temas morais pregados do púlpito.
Espero que este texto tenha provocado reflexão em vocês, assim como provocou em mim.
O que a Bíblia ensina sobre racismo?
A Bíblia ensina que todas as pessoas foram criadas à imagem de Deus, o que reforça a igualdade e a dignidade entre todos, independentemente de raça ou etnia. Cristo resume isso no mandamento de amar o próximo como a si mesmo.
Racismo dentro da igreja é um problema real?
Sim. É um tema que ainda carece de diálogo aberto em muitas comunidades cristãs, apesar de dados alarmantes sobre violência racial no Brasil.
Como a igreja pode combater o preconceito racial?
Por meio de conscientização constante, representatividade em posições de liderança e disposição real para reconhecer e corrigir práticas discriminatórias dentro da própria comunidade.
Uma pessoa racista pode ser cristã?
Praticar racismo contraria diretamente o mandamento de amar o próximo, que Cristo apontou como o segundo maior da lei. Por isso, racismo deve ser tratado pela igreja como incompatível com uma vida cristã coerente.
Quais livros cristãos falam sobre racismo?
O Estigma da Cor, de Jacira Monteiro, é uma referência direta ao tema dentro da fé cristã. Fora do universo cristão, Pequeno Manual Antirracista, de Djamila Ribeiro, também é leitura recomendada para aprofundar o letramento racial.



